21 de maio de 2026
Sobre o amor
Há pouco tempo ouvi sobre um gesto bonito de amparo e carinho em um relacionamento, sem qualquer expectativa de retorno, sem cálculos, só o interesse genuíno pelo outro. O relato singelo me fez pensar em como o amor, apesar de um ato tão essencial à vida, talvez tenha se tornado algo contraintuitivo – e que requer uma boa dose de coragem.
Sem alguma forma de investimento no outro, a vida psíquica empobrece e o sujeito se fecha sobre si mesmo, e, nesse fechamento, algo essencial se perde. No entanto, a lógica do lucro e do consumo pressupõe que os ganhos sejam sempre maiores do que os custos, e que o retorno justifique o risco. Nesse cenário, a margem para uma experiência genuína de troca e alteridade, algo fundamental para a vida e para o desenvolvimento, fica muito restrita.
Outra dimensão importante está no fato de que o amor não nasce da completude, ele se constitui em torno de uma falta. Amar implica, portanto, suportar a incompletude, não com o objetivo de eliminá-la em algum momento, mas para torná-la habitável. Um vínculo amoroso maduro não é aquele que extermina a ambivalência e a frustração, mas aquele que consegue sustentar a experiência emocional que emerge no encontro com o outro – inclusive quando ela traz verdades difíceis de suportar.
Há uma tarefa dispendiosa em amar, porque o amor implica a criação de um espaço psíquico compartilhado e de um campo em que duas subjetividades possam existir de modo mais vivo do que estariam individualmente, cada uma um pouco mais real em função da presença do outro. E isso envolve uma capacidade de sustentar a diferença do outro sem tentar anulá-la, tornando o amor simultaneamente um dos gestos mais vulneráveis e mais estruturantes de que somos capazes.
O problema é que encontramos, hoje, formas sofisticadas de simular esses gestos sem realizá-los. Uma lógica que transforma vínculos em investimentos (no sentido econômico): monitora-se o risco e avalia-se o retorno para descartar aquilo que não for imediatamente lucrativo. O laço amoroso, que exige tempo e permanência, enfrenta diretamente essa lógica de consumo, em que a conectividade se torna um substituto da proximidade. A facilidade de se conectar e desconectar parece ter como efeito colateral uma erosão gradual da capacidade de permanência, sobretudo quando o vínculo atravessa suas inevitáveis zonas de tensão.
Naturalmente, não se trata de desconsiderar os riscos de uma relação (de qualquer natureza que seja) e seus inevitáveis “custos”, mas de conceber a ideia de que o amor não deve ser tomado a partir das lentes que orientam o consumo, do contrário, a vida pode se tornar progressivamente limitada e mais difícil de sustentar. Afinal, como já dizia Freud: “Devemos começar a amar a fim de não adoecermos, e estamos destinados a cair doentes se, em consequência da frustração, formos incapazes de amar.”.