03 de junho de 2026
Sobre a verdade
Reza a lenda que, se existisse um guardião da verdade, nos dias de hoje ele estaria em profunda crise existencial. À medida que as redes sociais ganham cada vez mais espaço e a inteligência artificial avança, parece ser cada vez mais desafiador distinguir realidade e ficção e sustentar algum discernimento diante daquilo que se apresenta como verdade.
Talvez isso guarde uma relação com o fato de que lidar com a verdade implica suportar o que ela representa. Em uma lógica que promove o ideal de satisfação plena e constante, é de se esperar que haja alguma resistência ao trabalho psíquico envolvido em lidar com a realidade. No entanto, a capacidade de tolerar frustração e incertezas constitui uma condição fundamental para o desenvolvimento e para uma disposição madura para o contato com a vida e com o mundo.
No ambiente contemporâneo, marcado pela aceleração das redes sociais e pela difusão da inteligência artificial, a contemplação – atividade tão necessária para a verdade e o pensamento – se vê cada vez mais ameaçada e rara. Quando a capacidade de sonhar, pensar e metabolizar experiências falha ou é atacada, a tendência é evacuar o desprazer, buscando saídas que dispensem o trabalho dispendioso da elaboração e do pensamento. Resta um cenário árido de certezas performáticas e maior adesão a identificações grupais ou imagéticas, mesmo quando elas são perigosas e problemáticas.
Nesse sentido, importa menos se a narrativa é factualmente precisa e verdadeira e mais se ela oferece alívio e sentido de pertencimento. O ponto é que isso insere o sujeito em um circuito de repetição entre semelhantes, empobrecendo o encontro com a alteridade. Com os sistemas de IAs, a questão se potencializa, tendo em vista que textos, imagens e respostas podem ser gerados em escala dentro de um mesmo padrão, resultando em uma condição em que as produções passam a circular cada vez mais desvinculadas da experiência subjetiva que costuma sustentá-las em sua dimensão humana. E se há pouco tempo o discurso era ameaçado por desinformação e notícias falsas, hoje esse risco consiste também na falta desse elemento de densidade humana que a verdade produz e que só é possível por meio de uma experiência genuína e autêntica de contato com a vida.
Cabe ressaltar que não se trata da busca por uma verdade absoluta e a qualquer custo, tampouco de ignorar a ambivalência e as zonas de incerteza que a experiência humana comporta, mas de reconhecer o prejuízo e o risco envolvidos no esvaziamento da experiência e no desprezo pela verdade. Ou seja, a ideia não é condenar ou vilanizar a tecnologia (que, inclusive, me permite esta comunicação neste momento), mas atentar para o fato de que certos usos e dinâmicas podem se apoiar no desamparo e na angústia, convertendo-os em formas de captura e resultando em prejuízos importantes à autonomia, ao pensamento e ao desenvolvimento. Se, em Descartes, pensar era a condição da existência, talvez hoje pensar seja também sinônimo de resistência.