O que está em jogo quando se joga?

Um adolescente anuncia: - O jogo está marcado! Quatro horas no campinho. O outro jovem, a quem o aviso se dirigia, assente com a cabeça.

Era um domingo comum, uma comunicação breve, e apenas uma partida de futebol no campo do bairro. Não havia nada de extraordinário nem de aparentemente relevante envolvido na cena nem na partida – ao menos aos olhos de um adulto desatento e distante daquilo que, sutilmente, começava a ganhar forma ali.

Passado algum tempo, e com a hora derradeira se aproximando, iniciam-se os preparativos: desenrola o meião, estica-o, veste, ajusta-o ao pé, calça a chuteira, amarra, sobe o meião, veste a camisa e, a essa altura, torna-se fácil perceber que, para aquele jovem, aquela cena já não se desenrolava no concreto da calçada de um campinho de bairro. O lugar havia sido transportado e transformado em alguma espécie de templo sagrado do futebol.

A partida começa. Seis meninos se dividem em dois times de três, e outro assume a posição de goleiro. Quem passa por ali, de forma habitual, sequer nota o que está em curso. Para todos os efeitos, é só uma partida. Não condeno. De longe, talvez pareça mesmo ser; eu também pensei que fosse.

Mas, olhando atentamente, enquanto um deles conduz a bola, a concentração com que se entrega ao lance, o esforço empregado, a decepção ao errar o drible, a reclamação do colega e a expressão de quem é devolvido à realidade ao se deparar com a própria limitação técnica denunciam que aquilo é muito mais do que uma mera partida de futebol.

Um dos jovens cai. A mão no joelho, a expressão de dor e o movimento lento de quem tenta se recompor. Foi falta. Ele posiciona a bola cuidadosamente, afasta-se de forma calculada e se prepara. Não há câmeras, nem holofotes, nem torcida. Um longo suspiro e ele corre em direção à bola, confiante, pronto para se consagrar e viver um instante de glória; ele chuta. A bola sai alta, com muita força, e vai parar fora do campo. O colega no gol ri e desdenha. Ele, visivelmente constrangido, abaixa os olhos para o chão, como se tentasse localizar, na irregularidade do terreno, alguma explicação mais confortável para aquela falha vivida como fracasso.

Do outro lado do campinho, crianças brincam com pedaços de papelão. A cena é secundária, quase lateral, mas, tal como a partida, também carrega uma intensidade capaz de capturar até mesmo o olhar de um adulto, muitas vezes tomado por suas próprias concepções. Não sei qual é o enredo, nem a dimensão do que está em curso ali. Mas me dou conta do tamanho da minha ingenuidade por não ter percebido antes que decisiva não é apenas a final televisionada de um campeonato, mas também o valor atribuído ao que se vive e a capacidade de recriar, mesmo em situações comuns, uma experiência vital de prazer e inspiração, tão presente nas brincadeiras da infância. É isso que permite à criança se desenvolver, e é isso que, seguramente, permite ao adulto conservar algo da própria vitalidade.